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A arte discreta



O trabalho artístico de Célia Barros sempre se revelou pródigo na hora de questionar conceitos fundamentais que aplicamos à consideração habitual da arte: obras que põem em causa a relação entre matéria e forma, trabalhos que preterem o resultado em favor do processo, outros ainda que se submetem à mutilação e à depredação criativa por parte do espectador/visitante - que assim se torna cúmplice e partícipe da acção artística, a qual, por sua vez, deixa de circunscrever-se a uma actividade de estúdio ou laboratório, para passar a ser vivida e não apenas recebida.

Estas virtualidades críticas da obra de Barros continuam em alta, como podemos observar – termo que aqui invoca uma observação participativa, entenda-se – através dos seus projectos recentes e em curso: desta feita, através dos seus livros de madeira camuflados em estantes de bibliotecas, livrarias ou outros espaços afins, Célia questiona agora os limites entre os conceitos de exposição e instalação, ou seja, interroga a forma como se organiza e espacializa a exibição dos objectos plásticos e ainda, manifestamente, qual o acesso que o espectador (à falta de melhor termo) deve dispor relativamente às obras.

Senão vejamos... os livros que Célia construiu não estão apresentados como uma mostra: não estão aí imediatamente visíveis, destacados, ao olhar do receptor. A exposição – a que voltas nos obriga – não está concebida... como uma exposição, porque estas acostumam estar patentes, configuradas num espaço próprio a que o público vai porque sabe ao que vai. Ora, uma disposição de pequenas esculturas escondidas, semeadas ao acaso entre outros objectos - os livros, propriamente ditos, estes sim, ocupando os seus espaços e funções habituais -, convenhamos, não constitui uma exposição no sentido usual do termo.

Porém, tampouco podemos dizer que se trata plenamente de uma instalação: é verdade, os livros estão lá, a interagir com o espaço, como sói fazer-se neste tipo de acções. No entanto, as instalações criam-se normalmente para o espaço onde vão acontecer, adaptando-se às suas formas, dialogando com as suas geometrias, compondo estruturas com uma certa fixidez. Pois bem, os livros de Célia, além de salientemente móveis, preexistem à sua relação com este espaço onde agora se encontram. Na verdade, estão pensados para interagir com qualquer biblioteca ou livraria, mas não exclusivamente com esta em particular, onde circunstancialmente se mostram: estão concebidos para funcionar como uma instalação virtual, mas não efectiva. Jogam nesse intervalo – relativamente desconhecido - entre o que é expor e o que é instalar.

Além do mais, a artista continua a questionar o estatuto do receptor: em primeiro lugar, espectador, visitante, assistente, quase que só se pode ser de forma acidental, aqui. A exposição não está à vista, há-de ser encontrada, descoberta, desflorada pelo zéfiro da sorte, da casualidade. Mas logo, esse espectador incidental devém necessariamente activo – não pode simplesmente ver as obras de arte; estas só ganham o seu sentido último através dos sentidos desse invasor insuspeito, que terá de as de tocar, abrir, percorrer com o olhar e os dedos – porque não, também, o olfacto e os ouvidos –, procura que descerra e revela todas as procuras, essa sede de saber mais... Ao mesmo tempo que lhe indica, ao espectador-interlocutor, interactivo (como agora vai de moda dizer), literal e metaforicamente, que a arte se lhe abre nas mãos e que ele/ela é fundamental nesse processo.

Acabamos por falar pouco das obras, elas mesmas: pequenos objectos escultóricos de madeira - outrora abandonada, mas que encontrou singular destino -, gravados, cardados, incisos. É que o trabalho de Célia Barros detém esta extrema virtude – a de lançar-nos problemas teoréticos que escapam à condição dos objectos, porque os supera a forma como são dispostos, apresentados, configurados: contam mais, aqui, as questões que nos coloca a intervenção (chamemos-lhe assim, para variar). Mas claro, nada disto substitui a experiência estética, lúdica e heurística, de descoberta e surpresa, essa interacção em que se imerge e submerge quem visita a biblioteca, tacteando o objecto, interpretando-o, folheando-o à sua maneira peculiar. Nada disto é um manual de instruções. E os livros de madeira tão pouco o são: cada um à sua medida, no seu lugar, no momento único em que alguém os toca, maneja e desfruta.



Alexandre Nunes de Oliveira, filósofo e crítico de arte


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